Na última semana, uma amiga me recomendou uma série de músicas que ela anda ouvindo atualmente. São músicas da dita "nova safra da MPB". Dentre indies e feridos, salvaram-se os Filipes Cattos.
Mas um caso que me despertou curiosidade foi a banda Seu Chico - eles regravam músicas do Chico Buarque e já receberam o aval do próprio. Pois bem, eu - que me empolgo com regravações e novas versões - me entusiasmei para ouvi-los logo e sabor foi o mesmo daquela uva que você deixa para o final e descobre que está azeda. As músicas eram as da versão do DVD ao vivo, o que me fez constatar que: elas só funcionam ao vivo, em festa, dançando. A novidade que percebi nas regravações foi um ritmo de festa que balança o coração. Originalmente, Samba e Amor só poderia ser devidamente dançado na cama. Com o Seu Chico, você samba literalmente (até mais tarde, espero) no barzinho cult da comercial.
Ter uma versão revista e ampliada de uma música sempre me chamou atenção. Mas não aquelas que se assemelham pura e simplesmente à original. Tampouco aquelas que viram de cabeça para baixo num tom conceitual prepotente. É preciso ter um Dieu sait quoi que no fundo, no fundo je sais aussi...
Mas, tudo é uma questão de como você (tô falando de mim) enxerga o mundo atualmente. Quando era criança e via o comercial do Perfil do Caetano, achava estranhíssimo que ele cantasse Come As You Are. Depois, anos mais tarde, a música passou a me causar arrepios. E gosto dela do jeito que ela é, um oposto lindo.
Falando do que me trouxe aqui: Les Eaux de Mars do Georges (que descobri que era peguete da Édith Piaf!) sempre me emocionou por 2 motivos: sinto bastante orgulho quando artistas internacionais mostram que sabem que existimos, meu complexo de inferioridade - que nem sei se existe de fato - some. E quando ouço um estrangeiro falando/cantando português, o orgulho dobra. E no final das Eaux, Georges e seu sotaque fazem justamente isso.
Anos se passaram... e numa aula de francês, Les Eaux de Mars se tornou mágica. Os sentimentos e emoções do Tom foram mantidos por Georges. E o melhor, adaptados. E adaptação não é um processo muito simples aqui. Porque falamos não somente de adaptação para outra língua, fazendo com que as palavras se encaixem em versos musicados num ritmo convincente. O próprio Tom enquanto escrevia Waters of March teve um dilema daqueles que temos ao deitar para dormir: "como vou incluir 'é um espinho na mão, é um corte no pé' se nos Estados Unidos ninguém anda descalço?' ". Enquanto isso, no lustre do castelo... as Águas de Georges foram reformuladas para expressar o cotidiano francês. Et c'est trop belle, non?
Se as nossas águas fecham o verão, a deles fecham o inverno e abrem a primavera. Nossas águas são as famosas chuvas de verão (que com essas mudanças loucas do clima estão cada vez mais confusas). Já as águas de março dos franceses nada mais é que a neve derretida. Neve derretida!
"c'es lá niege qui fonde/ ce sont les eaux de mars"
Alterações climáticas à parte... o sentimento do homem não muda. Le mystère profond, la promesse de vie, c'est un peu solitaire, Ce sont les eaux de mars dans ton coeur tout au fond... É a vida, é a morte; em francês acompanhados respectivamente pelo sol e pelo "sono". É João, é José, é Joseph, é Jacques!
Franceses parecem não ter uma febre terçã, mas têm um caminho que caminha. Eles têm sopro de vento nas colinas, velhas ruínas, árvores milenares. E até o que temos em comum é incomum, como um bel horizont (que o nosso é dotado de um significado a mais).
Bem, sou suspeito pra falar que gosto das Águas de Março em outros países, em fevereiro, em qualquer jeito. Suspeito porque gosto de uma outra versão bem feita, concebida com carinho, com cuidado. Gosto que cuidem das coisas dos outros como se fossem suas. E também gosto de pontos de vistas diversos.
Águas de Março é superior à Waters ou Eaux? Pra mim sim, por 2 razões: 1 - a nacionalidade (não que eu seja nacionalista), a língua, a memória, a intimidade. 2 - foi adaptada com originalidade para as outras versões, porém mantendo sua essência, mostrando que a poesia do Tom é atemporal e ageográfica. Existe essa palavra?
![]() |
| A chuva parisiense do Woody Allen não de março, mas é linda também. |
