Daí a mulecada de hoje só quer saber de PlayStation, jogos pela internet, rede social e etc. Eu como sou o melhor tio do mundo, trouxe meu sobrinho (hoje com 13 anos) para passar uma semana de suas férias aqui em casa e o levei logo ao sebo da 406 norte.
Pelo que eu pude observar, a escola pública onde ele estuda não é das melhores (jura?) e ele também não recebe muito incentivo familiar para se interessar sobre algo mais consistente culturalmente. E é por isso que eu sempre gostei de levá-lo para passear em lugares menos óbvios pra ele. Ir ao museus, ver umas exposições, um filmes infantis no CCBB (ou seja, algo menos Disney pelo menos por uma tarde)...
E o que me deixa muito contente é que ele não acha chato. Pelo menos é o que eu acho, por 2 motivos: eu pergunto e ele diz que gostou - mas o pilantrinha pode estar querendo me agradar, usando aquela dissimulação geminiana típica; e como eu não confio muito nesse primeiro motivo, eu observo. E vejo que ele se interessa, fica curioso, comenta o que vê sem eu precisar ficar perguntando e faz muita piada, porque a figura tem o riso solto, viu! E o melhor é que tempos depois ele ainda faz analogias e associações com o que assistiu ou viu. Enfim, me sinto a pessoa mais realizada que há.
Voltando ao sebo... levei-o. Com duas intenções: escolher um livro e deixar ele escolher um outro. Pois bem, pesquisei e cheguei à conclusão que daria um livro do Darcy Ribeiro pra ele.
Calma minha gente.
Eu quando tinha 13 anos não sabia da existência de Darcy. Nem quando estava na Universidade, num campus que se chama Campus Darcy Ribeiro eu sabia direito. Hoje talvez ainda não saiba, e digo isso porque dizer que sei sobre Darcy Ribeiro é muita responsabilidade.
Ok, eu compenso nas crianças as frustrações daquilo que eu não tive (mas não me chamem de etnocida, eu não imponho, só deixo lá, pertinho) [mais um motivo do porquê não terei filhos]. Foi então que comprei pra ele o Noções de Coisas (1995), que tem ilustrações do Ziraldo. Fui procurar na sessão infanto-juvenil e nada! Fiquei um tempão procurando porque a funcionária me disse que tinha no acervo. Até que, prestes a desistir, me deparei com a sessão infantil. Na minha cabeça, claro que não estaria lá. E como o passatempo predileto da vida é me dizer que estou equivocado, lá estava.
Comprei e quase que pego pra mim.
É um livro onde o Darcy sai comentando sobre coisas. Qualquer coisa. Várias coisas. Sabedoria, Terra, Sol, cabelo, rabo, planta, índios (cê jura?)... E claro que não é qualquer comentário, mas parece uma conversa franca, sem frescura e com sinceridade e humor. (Eu vou roubar esse livro pra mim). Obviamente tem muita antropologia e relativismo cultural nas suas falas. Tristeza em algumas outras.
Do que li, selecionei algumas partes, porque disseminar informação é meu lema:
Além da Terra, o Sol mantém diversos planetas atados nele, como Mercúrio, Marte, Vênus e outros. Vistos daqui da Terra, eles são estrelas. Nós, também, para eles, somos apenas uma estrela.
Você acha que a humanidade vai acabar um dia? Ou pensa que vai durar para sempre? Eu gostaria que ela durasse para sempre. Mas acho até que pode acabar. Na verdade, isso não me interessa muito, porque se suceder, será daqui há muito tempo. Na era dos netos dos netos dos netos dos netos dos netos dos netos que eu nunca tive. Mas, mesmo assim, me preocupa!
Esses chamados sentidos são as janelas que você tem no corpo para não ficar aí, besta, feito uma pedra.
Terra em sua enormidade ínfima, é uma coisinha à toa, insignificante, dentro do Universo. Nem seria perceptível ou ponderável, se não fosse a vida. Essa fina camada de bolor que aqui viceja, ainda, vivendo e morrendo. Isso é nosso planeta, uma bola de fogo que esfriou, ou está esfriando, onde não se sabe como, nem porquê espocou essa coisa espantosa que é a vida.
Eu certamente teria amado ganhar esse livro aos 13 anos. Mas só saberia disso aos 23.

1 mil comentários:
Vi uma entrevista do Darcy uma vez e adorei a maneira como ele fala! Esse livro eu nao conheco, mas so pelos trechos eu ja amei.. haha
Meus tios eram o oposto. Como na minha casa era todo mundo muito intelectual era o meu tio que me levava para ver "A princesa Xuxa e os trapalhoes".... hahaha.... Traumas eternos!
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