Como assim dia 10/12 o espírito de Clarice fez 91 anos e eu não postei nem uma frase dela?
Pra compensar, vou postar duas (dois fragmentos):
"Eles se mexiam agitados, rindo, a sua família. E ela era a mãe de todos. E se de repente não se ergueu, como um morto se levanta devagar e obriga mudez e terror aos vivos, a aniversariante ficou mais dura na cadeira, e mais alta. Ela era a mãe de todos. E como a presilha a sufocasse,ela era a mãe de todos e, impotente à cadeira, desprezava-os. E olhava-os piscando. Todos aqueles seus filhos e netos e bisnetos que não passavam de carne de seu joelho, pensou de repente como se cuspisse.(...) Mas, piscando, ela olhava os outros, a aniversariante. Oh o desprezo pela vida que falhava. Como?! como tendo sido tão forte pudera dar à luz aqueles seres opacos, com braços moles e rostos ansiosos? Ela, a forte, que casara em hora e tempo devidos com um bom homem a quem, obediente e independente, ela respeitara; a quem respeitara e que lhe fizera filhos e lhe pagara os partos e lhe honrara os resguardos. O tronco fora bom. Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade? O rancor roncava no seu peito vazio. Uns comunistas, era o que eram; uns comunistas. Olhou-os com sua cólera de velha. Pareciam ratos se acotovelando, a sua família. Incoercível, virou a cabeça e com força insuspeita cuspiu no chão."
Feliz Aniversário. In: Laços de Família
"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples estado de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."
Nota: eu não sei o que estou fazendo da minha vida que ainda não li Clarice, (há algo mais cool que um livro chamado Clarice vírgula?) do Benjamin Moser...
Nota 2: eu não achei o máximo a Clarice da Beth Goulart na peça que ela fez ano passado. Gostei, mas não amei. Ficou muito pop, muito engraçadinha.Meu primeiro contato com CL foi no ensino médio, tendo que ler A Paixão Segundo G.H. Ali, Clarice já sabia que barata pode ser um barato total. E eu não conseguia parar de ler o livro e pensar "poxa, essa tia sabe muito dos sentimentos".
E meu último contato foi com sua crônica sobre Brasília (ela morou aqui, enquanto mulher de diplomata) [e eu agora estou com uma mania besta de me interessar por tudo que se refere a Brasília] {pra lembrar se usa crase no "a" antes de Brasília, usei aquele cláááássico mnemônico: vou a, volto da=crase no A; vou a, volto de=crase pra quê?}.
Já falei citei ela por aqui e aqui.
(sempre achei a Clarice nossa Virginia)

1 mil comentários:
Ela é total nossa Virginia. Total.
Não tenho medo dela, tenho medo porque me sinto muito como ela. E isso não é bom, convenhamos.
;)
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