quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Uma Tarde no Museu - Museu Vivo da Memória Candanga


Atualmente, a residência oficial do Presidente da República é o Palácio da Alvorada:


Porém, durante a construção de Brasília, o Presidente residia aqui:

O Catetinho foi a primeira residência do Presidente em Brasília. Construída nos moldes que remetem às casas dos operários que construíam a cidade, feitas de madeira e com pouco conforto. Obviamente o Catetinho tinha mais conforto, foi projetado pelo Niemeyer e tudo mais.

Então, digo tudo isso pra mostrar que não existe mais nada preservado dessa arquitetura inicial que mostra o como e o porquê era feito assim. Afinal, a idéia era justamente demolir essas edificações assim que a cidade nova ficasse pronta. Na verdade, além do Catetinho, há o que hoje é o Museu Vivo da Memória Candanga.

O Museu Vivo ocupa as instalações do que um dia foi o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira - o primeiro de Brasília e que atendia aos candangos trabalhadores na construção da nova capital. À frente, várias pequenas casas onde moravam os funcionários do hospital.



O interessante da sua história, é a pressão e campanha da comunidade para que o conjunto arquitetônico não fosse demolido, mas preservado. A população reivindicou que o local não fosse destruído e conseguiu seu tombamento. Hoje, restaurado, virou museu dos primórdios da capital e de seus trabalhadores (de Lúcio Costa ao pedreiro de nome desconhecido). Localizado na Região Administrativa do Núcleo Bandeirante (cidade satélite), local afastado onde moraram os trabalhadores das obras.

A atração principal do Museu é o conjunto arquitetônico com várias casas originais dos anos 50. Foram, obviamente, restauradas e pintadas de diversas cores. E, mais óbvio ainda, há pouca infraestrutura e tem o ar de cidade fantasma, pouco visitada.

A exposição permanente é a "Poeira, Lona e Concreto" e conta com fotos, poucos objetos e algumas reconstruções de ambiente do início da cidade. Agradou-me o percurso na exposição por não ser um simples vão com fotos expostas. Mas sim painéis explicativos que exige que você transite pelo ambiente. A narrativa é parte temática e cronológica (embora falte um painel, o de número 8 misteriosamente sumiu) e requer que você siga o fluxo pré-determinado - o que dispensa a presença do guia, a princípio. Há inclusive uma escada que também alude aos locais onde os candangos trabalhavam (aliás, não sei se era permitido subir nela, mas subi e bati minha cabeça no teto).

JK
  

                           Painéis sobre Niemeyer e Lúcio Costa                                                                                                                                                    




       
Reconstrução do que seria um pouco do canteiro de obras.




Reconstrução do que seria um barraco onde moravam os candangos.

  



Candangos que vieram de outros Estados trabalhar na construção.

Fragmento do painel de Athos Bulcão.



Fotos de fotos, porque metalinguagem é tudo:




Acreditem, existiu o carro "Candango"
Na exposição sobre o HJKO, há uma maquete do hospital sem legenda e com o seguinte aviso:



Ou seja, é curioso e simultaneamente compreensível que o museu dialogue diretamente com o público, inclusive para pedir informações. Afinal, o museu pertence à sociedade e cabe, também, a ela formar o local que guarda sua memória.

E por isso mesmo aprecio a iniciativa da comunidade em 1983 ao não querer que aquele espaço fosse demolido, mas preservado. E por pressão pública que o hospital e as habitações foram tombadas e hoje serve como museu e salvaguarda do passado.

É perceptível que o museu carece de um cuidado especial. O piso de uma das instalações está quebrado, não há legenda na maioria dos objetos, falta um painel explicativo, os avisos são esteticamente feios e feitos em A4 - além de sujos já que representam Brasília (muita poeira vermelha!!), as casas parecem não muito bem conservadas etc. Uma série de fatores que acredito serem os menores (pois os bastidores são sempre mais emocionantes que o próprio espetáculo).

Não sei se o museu é muito visitado, mas julgo que não. A divulgação maior é pelo boca-a-boca de quem participa dos cursos e oficinas oferecidas pelo local. Fora essa questão, há o desinteresse - parcialmente explicável - da população.

Infelizmente, a maioria das casas é fechada. Não tem como entrar nelas, o que limita à observação externa e a não aproximação num contanto mais direto, possivelmente, com a vivência da época ou algum outro uso diferente e dinâmico.

É pertinente salientar que o museu recebe o nome de “vivo”, o que demonstra sua intenção de não ser um mero depósito de objetos e fotos, mas uma entidade que ainda está em formação, atuante e, talvez, disposta preservar e abraçar a história de quem faz a cidade de Brasília. Ainda mais que se vê um foco maior no candango, pobre, vindo de outra cidade, esquecido e negligenciado por décadas, perdendo espaço para JK, Costa, Sayão, Niemeyer, Darcy etc.

Em um dos painéis da exposição permanente, há um trecho do discurso de JK na inauguração de Brasília. Numa parte destaca-se “Um dia virá alguém que fixará no papel a nossa história de ‘candango’. As gerações futuras desejarão saber tudo o que aconteceu na capital da Esperança”. E é isso que se espera de um museu que se diz vivo e de memória.


1 mil comentários:

Ana Pe disse...

Que postagem maravilhosa!