sábado, 16 de julho de 2011

Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil

Matando tempo na livraria Saraiva do Pátio enquanto espero a hora para um compromisso, deparo-me com a capa de um livro que remete a um Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band

abrasileirado com o chamativo título Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”. Lendo a contracapa, vejo que o autor Leandro Narloch quer mostrar uma maneira diferente de contar a história desse país de coqueiro que dá coco.

Com uma capa dessas, um título assim, no mínimo o livro deve conter casos curiosíssimos com uma ironia fina, pensei. Afinal, um livro que seja diferente daquele lenga-lenga contado no ensino médio (sim, pois na universidade você reaprende quase tudo), sem politicagem e abordando curiosidades novas é sempre bem vindo.

Se bem me lembro das aulas de Introdução ao Estudo da História, a historiografia, sucintamente, é contar a História a partir dos registros que se tem e de acordo com a intenção e visão do autor. Caso clássico, mostrar uma fotografia para pessoas distintas de ocupações diversas e cada uma terá uma interpretação diferenciada. Clássico “quem conta um conto aumenta um ponto”.

Então, esse “Guia” do Narloch pretende mostrar um lado oposto da história até então contada e recontada. A aversão do autor aos tradicionais heróis nacionais é clara, já que heróis e vilões cabem bem em contos de fadas e novelas que resumem a moral em bem e mal. Na vida, no dia a dia, nas relações não é bem assim. A questão maior é a diferença de culturas e a imparcialidade para entendê-las (porque é óbvio que para quem come a carne de um inimigo para absorver qualidades não há sentido na intenção de determinas pessoas que comem uma massa de farinha com água que representa o corpo e espírito de um deus; e vice-versa). Veja bem, entendê-las, não concordar ou participar.

Me empolguei por querer conhecer um pouco mais do outro lado da historia tradicional. Assim, o livro é uma grande aposta. Quer dizer, seria.

O próprio autor afirma que o livro é uma provocação que veio para irritar, que bate na mesma tecla dos historiadores parciais que ele tanto condena. E esse foi seu maior acerto em todo o livro. Quando eu já me deparava na página 50 foi quando percebi subitamente de que ele realmente tinha planejado a escrita do livro só e somente só para polemizar. Por mais que determinados fatos sejam comprovados, a forma como Narloch ironiza comprova que o livro é uma piada de 367 páginas. O problema maior é que a ironia vaga, boba e sem graça deixa o conteúdo proposto com ar de leviandade. Por mais que se faça um esforço e considere o assunto sério e totalmente verídico, não tem como levar a sério o que está escrito. É um humor que não acerta.

Como eu estava muito empolgado com a ideia do livro, pensei até um fazer um post para cada capítulo à medida que o fosse lendo. Mas ao analisar a situação da obra ainda no 1º capítulo – sobre índios – me bateu um desanimo massivo. Pois o que eu li é exatamente o contrário do que eu idealizei ao julgar o livro pela capa. A partir da página 50 até diminuí as observações que ia escrevendo e passei a ler com intuito maior de encontrar alguma curiosidade que valesse a pena. E há algumas, como a história da migração dos primatas e como vieram parar na hoje América; a preocupação com o meio-ambiente ainda no Brasil-Colônia.; curiosidades etimológicas etc.

Porém, não há como ter consideração com um autor que escreve que “muitos índios deviam achar bem chato viver nas tribos ou aldeias nas aldeias dos padres” (p. 33), “há sinais de que índios aldeados também se integraram” (p.43), “um tal de Antônio Azevedo Sá” (p. 69). Deviam achar? Há sinais? Um tal de? Oras, se um homem é 30 vezes mais rico que aquele bandeirante que dominava índios (esse é o argumento para mostrar que um bandeirante não fazia tanto mal aos índios), como pode ser simplesmente um tal de...

A falta de precisão não é de assustar. Pois quando o que prevalece é a ofensa, a imprecisão torna-se viável; já quando se é ofendido, defende-se de maneira a dizer que tais dados não são científicos, não possuem concisão e, portanto, não são válidos. Quando Narloch ataca, tendencia ao máximo seu argumento enchendo o texto de adjetivos.

Para salientar que os astecas eram mais numerosos que os espanhóis (e por isso esses são uns pobres indefesos), Narloch ressalta que os espanhóis eram um punhado enquanto os astecas eram milhões (p.39). Se alguém puder me explicar a exata distância de um punhado para um milhão, eu agradeço com um punhado de beijos. Dezenas, centenas, milhares? 999.999 astecas contra 1.000.000 de espanhóis? O autor é tão tendencioso que ao afirmar que os índios não se importavam em acumular riquezas logo diz que tampouco se preocupavam com riquezas naturais – aproveita do termo riqueza para não fazer distinção entre joias e árvores.

Na página 36, antes de salientar que os índios são um povo que gosta de guerra, o autor afirma que era por meio de alianças militares com os caciques que os portugueses conseguiam o que queriam; e não por meio do escambo. Afinal, na mesma página, o autor destaca que os índios achavam “facas, anzóis e machados” sem graça depois de um tempo, quase inúteis. E 2 páginas depois sobressalta o fascínio dos índios por trocas de materiais com os portugueses. E exatamente na página 51, evidencia como 3 instrumentos mudaram a vida dos índios e esses deviam ter ficado estupefatos e gratos: anzol, machado e faca.

Como eu disse, deve ser uma piada longa.

Há ainda o apelo emocional barato:

“Em 1605, o Pe. Jerônimo Rodrigues, quando viajou ao lioral de SC, ficou estarrecido com o interesse dos índios em trocar gente, até da própria família, por roupas e ferramentas”

Oh, vou sensibilizar os leitores falando que os índios trocavam os próprios parentes por mercadorias. Pego um dado de um povo em determinada situação há séculos e analiso como se tivesse acontecido ontem, com meus vizinhos. Afinal, é muito mais fácil enxergar o outro com olhos de parcialidade, evidenciando como somos superiormente civilizados. Afinal, os laços de amor fraterno só existem entre os ocidentais brancos e europeus.

Narloch quer continuar a fazer o que os historiadores que ele critica fazem: dividir a história em vilões e heróis numa escrita desprovida de qualquer relativismo cultural. Se o que ele quer é mostrar como uma historiografia feita assim (com divisões políticas) é pobre e ineficiente, ele conseguiu. Merece os parabéns. Entretanto, se quer só ser a Lady Gaga da historiografia atual, meus pêsames. Fazer tipinho de polêmico, cansa e nem é engraçado

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