Desde os idos de fevereiro de 2007, minha vida profissional se resume em estágios e tentativas fracassadas de michesismo. Depois de mostrar meus dotes arquivísticos em órgãos públicos, empresas privadas, poder executivo, poder legislativo, universidades... posso dizer que tenho certa experiência nos estágios. Quase um vadio dos estágios, de tão rodado. Mas não pensem que encontro chefes no Setor Comercial Sul. É puro profissionalismo com doses de Maquiavel e um sorriso contagiante.
Ganhar uma bolsa de baixo valor – sem vale-transporte – é até valido quando você pode aprender algo além de servir cafés. Ver que você sabe mais que o funcionário substituto por exemplo (que ao ser surpreendido pela nova lei de estágio pergunta “Mas vocês vão usar a lei? Ela é pra todo mundo?”) não tem preço. Ou saber das conversas da rádio corredor, sabendo que o motorista pegava a funcionária que entrou no órgão por comissão por intermédio do marido. Ou ver funcionários mortos de bêbados na festa de fim de ano, dando vexame e contando intimidades do Diretor Geral. Alguma coisa tem que ser divertida.
Engraçado mesmo é observar seus coleguinhas de trabalho. Ainda mais se você for de universidade pública, que abrange todo o tipo de gente. Sem dúvida o melhor é ver as espécies de estagiários – que fazem parte do seu já conhecido nicho na universidade e você os vê ali recebendo broncas e saindo putos com uma cópia da lei de estágio na carteira pra poder esfregar na cara do chefe assim que sair do estágio por vencimento de contrato.
Eis os tipos mais comuns:
A patricinha-rodada: cada entrada no departamento é um flash. Anda como se estivesse num desfile, se for elogiada fala onde comprou cada centímetro que usa e 60% do tempo fala sobre suas baladas e amigas bulímicas (sem revelar nomes, eticamente). Veste uns 3 mil por dia. Graças ao seu jeito dado, todo mundo acha que ela dá pra todo mundo, mas só transou 3 vezes e sente certo asco.
O Che: socialista barbudo que vai pro estágio com camisa vermelha e pra aula com camiseta do Che. Sempre sabe das festas grátis onde rola maconha e se revolta facilmente diante de acúmulo de trabalho, acha exploração. Ah, não lê a Veja.
A lésbica-vegan: a patricinha-rodada a acha muito estranha. Sabe como saturno em órbita com sagitário na 9° casa de Lua em dezembro afeta seu Natal. Não come carne, tem carteirinha do Greenpeace e do PETA. Faz a linha lesbian chic mas se anima com uma sapacaxa do Agreste. Inteligente e nervosinha.
A bi_curious-moderninha: usa roupas coloridas, tem tatuagem, é meio clubber, tem All Star vermelho, óculos escuros acetato rosa, e seu hino é Meninos e Meninas do Legião Renato Urbana Russo.
O gay-indie: conhece tudo sobre músicas e filmes alternativos, principalmente dos que tratam de tema sexual explícito. Trabalha melhor quando o chefe é um coroa bem apresentado. Vai pra Landscape com a bi_curious moderninha.
O bombado-baladeiro: passa 60% do tempo no estágio postado fotos no Orkut da última festa. Não usa Twitter por não ter muito o que falar e das últimas vezes que twittou foi algo do tipo “chegei bebassooooo demaaaaais veio!!”, “comendo barrinha de cerau”, “indo pra academia, me apressaram e eu engoli o Listerine”. Faz favores pra todos para ser bem aceito e elevar seu complexo de superioridade. Cansado de ser taxado como burrico, começou a ler a Veja.
O rockeiro-cabeludo: rock na veia, se dá bem tanto com o funcionário ex-Woodstock, com a tia ex-gótica, com o contínuo que vai pro Porão do Rock e com a patricinha-rodada que ouve Pitty. Sabe fazer piada, é inteligente, emotivo e alisa o cabelo que vai até a cintura.
A Magda do Sai de Baixo: é aquela que ninguém sabe como entrou na universidade, mas todos riem do que ela fala e por isso é bem aceita. Sua frase mais repetida: “Não tem nada pra mim fazer”.
TãoAspone












